A derrota para a Bolívia, em El Alto, pela última rodada das Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa do Mundo de 2026, trouxe à tona uma realidade que já não pode mais ser mascarada pela desculpa da altitude ou pelas dificuldades típicas de jogar fora de casa. O tropeço por 1 a 0, em um jogo marcado por polêmicas e pela intensidade dos donos da casa, simboliza o que foi a pior campanha do Brasil em toda a história das Eliminatórias.
Com seis derrotas sofridas ao longo da competição e apenas 28 pontos conquistados, a Seleção terminou na quinta colocação, vaga que garante participação no Mundial apenas por meio da repescagem. Para um país que se acostumou a liderar o continente, a classificação apertada soa como um alerta vermelho a nove meses da abertura da Copa. Mais do que lamentar o revés contra a Bolívia, é hora de olhar para dentro e buscar respostas.
A derrota em El Alto: retrato de um ciclo irregular
Jogar em La Paz ou El Alto sempre foi considerado um desafio. A altitude de mais de 4 mil metros exige preparo físico, adaptação e, muitas vezes, influencia diretamente no resultado. Carlo Ancelotti, experiente e acostumado a grandes jogos, tentou traçar uma estratégia de cadência: prender a bola, girar passes e evitar acelerações. Porém, na prática, o plano não funcionou.
O Brasil até teve mais posse (58% contra 42%), mas produziu pouco. Foram apenas três finalizações certas em todo o jogo, contra nove da Bolívia. Richarlison e Samuel Lino, esperanças de mobilidade ofensiva, não renderam. Bruno Guimarães até tentou organizar a saída de bola, mas esbarrou na falta de opções de infiltração.
Do outro lado, a Bolívia, empurrada por sua torcida e pelo grito incessante de “Sí, se puede”, acreditou até o fim. O pênalti marcado pelo VAR, convertido por Miguelito, abriu o placar e foi suficiente para garantir a vitória histórica e alimentar o sonho boliviano de disputar a repescagem.
Mais que altitude: números preocupam
Se a derrota em El Alto pode ser explicada pelo fator geográfico, a campanha brasileira nas Eliminatórias expõe algo mais profundo. Foram seis derrotas em 18 jogos, contra cinco adversários diferentes — um desempenho inédito para a Seleção.
O Brasil perdeu consistência defensiva, sofreu com a falta de entrosamento e não encontrou um padrão de jogo, mesmo sob o comando de quatro técnicos diferentes ao longo do ciclo. A irregularidade se tornou a marca registrada dessa caminhada.
Enquanto isso, seleções como Argentina, Uruguai e Colômbia apresentaram crescimento. A campeã mundial, liderada por Lionel Messi, se manteve sólida. O Uruguai, com Bielsa, renovou seu estilo de jogo e foi uma das sensações da competição. Já a Colômbia, com uma geração reenergizada, mostrou força ofensiva e conquistou vitórias importantes.
Comparado a esses adversários diretos, o Brasil ficou atrás em desempenho e em evolução.
O que deu errado?
1. Instabilidade no comando técnico
A Seleção passou por quatro treinadores no ciclo. Cada técnico trouxe sua filosofia, o que resultou em mudanças constantes de escalação, sistemas táticos e até de postura dentro de campo. Essa instabilidade gerou falta de identidade e afetou o rendimento coletivo.
2. Dependência de individualidades
O Brasil, historicamente, sempre contou com craques que resolviam jogos. Mas confiar apenas no talento individual não tem sido suficiente. A ausência de Neymar em boa parte da campanha, devido a lesões, deixou o time sem sua principal referência. Outras estrelas, como Vinícius Júnior e Rodrygo, oscilaram entre bons momentos e atuações apagadas.
3. Problemas no setor defensivo
Mesmo com nomes experientes como Marquinhos e Alisson, a defesa brasileira sofreu gols em jogos que antes pareciam controlados. A falta de cobertura no meio-campo e a pouca eficiência na marcação pressionada permitiram que adversários explorassem espaços com facilidade.
4. Baixa efetividade ofensiva
A Seleção finalizou menos do que seus principais rivais e teve dificuldades em jogos contra defesas fechadas. A falta de um centroavante em boa fase, como se esperava de Richarlison, foi um fator determinante.
O que esperar para a Copa?
Com a quinta colocação e a necessidade da repescagem, o Brasil chega à Copa de 2026 pressionado e com a missão de reconquistar a confiança da torcida. Carlo Ancelotti, acostumado a grandes desafios, terá nove meses para ajustar a equipe e dar consistência ao trabalho.
Entre os pontos positivos, destaca-se a renovação natural que vem acontecendo. Jogadores como Endrick, Estêvão e João Pedro ganham cada vez mais espaço e podem ser protagonistas no futuro próximo. O desafio do treinador será mesclar essa juventude com a experiência de atletas como Casemiro, Marquinhos e Alisson.
Outro aspecto que precisa ser corrigido é a postura coletiva. O Brasil não pode mais se dar ao luxo de depender de lampejos individuais. A organização tática e a disciplina coletiva precisam ser prioridade.
Lições da derrota para o futuro
A derrota contra a Bolívia, embora simbólica, pode servir como um marco para virar a chave. O Brasil precisa usar o insucesso como aprendizado, reconhecendo erros e valorizando a autocrítica.
O discurso de que a altitude explica tudo não convence mais. A Seleção tem elenco, tradição e estrutura para superar adversidades. O que falta é transformar esse potencial em rendimento dentro de campo.
Além disso, reconquistar o torcedor será essencial. A relação entre Seleção e público ficou abalada ao longo da campanha, e a Copa é a oportunidade perfeita para criar um novo vínculo de confiança.
O Brasil encerrou as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026 com uma derrota em El Alto que, embora compreensível pelo contexto, representa apenas a ponta do iceberg de uma campanha preocupante. Foram meses de instabilidade, mudanças e decepções, que culminaram na pior campanha da história da Seleção nesse torneio.
Agora, com nove meses até a estreia no Mundial, Carlo Ancelotti e seus comandados têm a missão de resgatar a identidade da equipe, ajustar falhas e reconquistar a confiança do torcedor. A camisa verde e amarela carrega um peso histórico, e mesmo em momentos turbulentos, o Brasil sempre entra como candidato ao título.
A derrota para a Bolívia pode ser vista como um fracasso imediato, mas também como um ponto de virada. Se houver humildade, autocrítica e trabalho sério, a Seleção tem tudo para transformar a frustração em motivação. Afinal, a história mostra que é justamente nos momentos mais difíceis que o futebol brasileiro costuma renascer.
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Jornalista, especialista em conteúdo para web, revisora e editora. Paola Patrício, jornalista, especialista em conteúdo para web há mais de 10 anos. Analisou e escreveu sobre diversos temas, até se apaixonar pelo esporte e outros temas. Seu foco é levar informações valiosas para os leitores com conteúdo de qualidade.
